quinta-feira, 7 de junho de 2012


      Resenha sobre o texto “Um discurso sobre as Ciências na transição para uma ciência pós-moderna” de Boaventura de Souza Santos. 


Eliane Barreira
Adriana Thorstensen

                                                                                                                                    


O autor em seu texto faz uma análise do processo evolutivo das ciências, desde o século XVI até os dias de hoje.  Fica clara a interpretação de que as ciências do século XX ainda não aconteceram e, talvez, segundo o autor, só venham a acontecer no século XXI.

Com uma dupla abordagem metodológica, da suspeição da recuperação, o sociólogo Boaventura de Souza propõe uma identificação das formas de conhecimento.  Para tanto, empreende uma crítica sistemática à ciência moderna, cujas práticas de conhecimento engendram a sociedade e o mundo.  A suspeição sendo a atitude de questionar ideias e autores, e a recuperação funcionando como uma coleta de dados filosóficos, históricos e sociológicos, em sua maioria.

Do ponto de vista de Boaventura, quanto à acepção e ao objetivo de uma dupla ruptura epistemológica ocorrida na “fase de transição” em que viveríamos: não há sentido em criar um conhecimento novo e autônomo em conflito com o senso comum (1ª ruptura) se esse conhecimento não visar a transformar o senso comum e a transformar-se nele (2ª ruptura).  Essa fase de transição paradigmática caracteriza-se pela conceitualização da ciência existente (moderna) em função de uma nova (pós-moderna) de perfil indefinido.  Tal reconceitualização advém das seguintes condições teóricas da dupla ruptura epistemológica, apontadas pelo sociólogo:

> A consciência da ciência moderna é representada pela epistemologia que precisa ser submetida à reflexão hermenêutica, conforme a problematização do sentido da ciência.

> Os objetos teóricos que a ciência constrói sobre si e as “imagens” que faz de si são desconstruídos pela reflexão hermenêutica (desdogmatização da ciência).

Só a concepção pragmática da ciência rompe com a circularidade da teoria, uma vez que, como concepção pragmática da verdade do conhecimento científico, trabalha a partir do processo intersubjetivo onde o rigor científico é embasado pelo rigor das medições. Em suas reflexões, Boaventura demonstra que a ciência da época pós-moderna vem gradativamente ocupando o espaço da ciência moderna, esta ultima que ao deixar de olhar para as reais necessidades humanas, distanciou-se cada vez mais das múltiplas possibilidades de aprimorar a realidade através dos diversos processos de produção do saber científico.

A maneira verticalizada como se constituiu a ciência ao longo dos anos segundo Boaventura fundou uma lógica que ele chamou de “determinismo mecanicista”, que tem permeado o imaginário social e seu comportamento.   Assim, fica claro que a ordem científica hegemônica insiste em manter-se inflexível às reais necessidades humanas. Tal estrutura científica compromete-se unicamente com uma forma singular de se buscar o conhecimento verdadeiro, baseando-se em seus princípios epistemológicos e em metodologia restrita. Este processo obriga-nos a uma reflexão mais aprofundada sobre os limites desta estrutura científica que, na modernidade, tornou latente, para não dizer reais, os perigos de uma guerra nuclear e na pós- modernidade, de uma catástrofe ecológica.   

Várias teorias são citadas por nosso autor, uma delas do físico Hermann Haken, que fala do sistema visual em que vivemos, sistema esse muito instável, onde a mínima oscilação de nossa percepção visual acarreta em rupturas no sistema do que vemos e vivemos.

Apresenta-nos como necessária a capacidade de formular questionamentos simples, que seriam capazes de indicar novas possibilidades para responder as demandas sociais que a ciência não consegue. Usa como forma de corroborar os questionamentos de Jean-Jacques Rousseau:


>O progresso das ciências e das artes contribuirá para purificar ou corromper os nossos costumes?


>Há alguma relação entre a ciência e a virtude?


>Há alguma razão de peso para substituir o conhecimento vulgar que temos da natureza e da vida e que partilhamos com os homens e com as mulheres da nossa sociedade pelo conhecimento científico produzido por poucos e inacessível à maioria?


>Contribuirá a ciência para diminuir o fosso crescente na nossa sociedade entre o que se é e o que se apresenta ser, o saber dizer e o saber fazer, entre a teoria e a prática?

A estas perguntas, Rousseau respondeu em sua época com um rotundo “não” e, por incrível que possa parecer, tais perguntas são atualíssimas, mais de 200 anos depois, já que em tempos de crises morais e inúmeros questionamentos acerca do quanto os saberes cientificamente produzidos têm a possibilidade de responder às mazelas sociais ou, ainda, quanto o senso comum contemporâneo dialoga com os saberes científicos a ponto de dar respostas a essas questões da sociedade.

Torna-se necessário um delicado esforço de desvendamento conduzido sobre “um fio de navalha” entre a lucidez e a ininteligibilidade das respostas, que dialoguem em um mundo globalizado, com os saberes socialmente produzidos pelo senso comum, onde se incluem os estudos históricos, jurídicos, filosóficos como afirmado no texto, e os racionalizados cientificamente oriundos de um modelo totalitário, pautados por regras metodológicas.

Este desvendamento associado ao necessário diálogo entre o senso comum e o conhecimento científico, propiciaria o surgimento de uma nova ordem diferenciada do paradigma que dominava a sociedade.  De maneira irreversível, Albert Einstein através de seus estudos e de suas experiências, rompe definitivamente com o modelo engessado, duro, de uma ciência presa a princípios exclusivamente experimentais, quantificáveis, para um processo de relativização das coisas, em que a ideia do que é real é tão somente aquela que nossa percepção nos permite ter e que pode ser alterada por nossa interferência ou mesmo pela percepção de outra pessoa em um outro momento acerca de uma mesma realidade.

Passando a não fazer mais sentido, a distinção entre ciências naturais e ciências sociais, descontroem-se os conceitos limitantes de lei, que são substituídos gradativamente pelo de sistema, onde do segundo podem-se inferir que tudo passa pela noção de processos estruturantes, que dialogam entre si, recusando a lógica positivista e mecanicista para privilegiar o humano em sua essência e amplitude. Este caminho levará ao fim da distinção hierárquica entre conhecimento científico e conhecimento vulgar em que prevalecerá o fazer e o dizer da filosofia da prática.

Muitos filósofos e cientistas, cada um em suas respectivas produções, são citados por Boaventura seja no campo das ciências naturais, seja no das ciências sociais, mas já fazendo “cair por terra” a distinção dualista entre as mesmas, e afirmando ao longo do trabalho a necessidade de diálogo e interação entre os múltiplos saberes produzidos na humanidade.

Os conhecimentos advindos do paradigma emergente tendem assim a saberes não dualistas, ou seja, sua produção passa a fundar-se na superação das distinções tão familiares e óbvias que até há pouco considerávamos insubstituíveis, tais como subjetivo/objetivo, natureza/cultura, natural/artificial, vivo/inanimado, mente/matéria, coletivo/individual, animal natureza/pessoa material.

Neste período de transição entre paradigmas, particularmente importante, torna-se fundamental epistemologicamente falando, observar o que se passa nessas ciências considerando todos os fatores antes vistos de maneira independente e isolados, para vê-los do modo como dialogam entre si e os resultados desse diálogo.

Podemos inferir que o tempo presente em toda sua complexidade, um tempo de constante transição, no qual muita coisa permanece além dele, e descompassado em relação a tudo o que habita ou habitou, nos leva ao seguinte questionamento:  


 Até quando a produção científica e as ciências sociais aliadas a tudo que é produzido no cotidiano da vida humana, no senso comum, que refletindo em muitos casos a concretude de pensamentos, atos que definitivamente alteram a realidade de nosso mundo darão conta de determinar os rumos da sociedade, em um movimento dialógico em busca de saberes que não fragmentem o todo, mas respeitem que esse todo é fruto dos saberes locais?


O que está em jogo é o conhecimento científico poder tornar-se uma nova forma de senso comum, em que a disputa não acontece entre o homem e a natureza, ou entre o homem e o objeto, mas entre o homem e o próprio homem, na medida em que os saberes produzidos e escritos em línguas distintas e tempos diferenciados, necessários para explicar seus respectivos “mundos” tornam como afirma no texto: “o cientista um ignorante especializado e o cidadão comum um ignorante generalizado”.

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