terça-feira, 8 de maio de 2012


A HORA, A VEZ  E A VOZ DO SUJEITO EJA


"A Educação de Jovens e Adultos para mim tem sido um momento de muita alegria e conquistas pessoais. Com o convívio das adversidades culturais, aprendemos não só a ler e a escrever, mas a PENSAR, desenvolver o sentido crítico e a ser um CIDADÃO."

"Com meus 61 anos de vida, dos quais fiquei 40 anos fora de uma classe escolar, não estou procurando só um diploma e uma qualificação profissional, mas sobretudo a troca de experiências e a ser um ser útil à sociedade."

"Ainda é triste ver em uma classe escolar profissionais de ensino desinteressados e descompromissados com a educação, o que faz baixar ainda mais o interesse do aluno, a estima e a vontade de crescer como cidadão. Vejo a luta de alguns professores em procurar em todos os meios uma forma de melhorar a nossa condição, mas parece ser uma coisa isolada, quase um idealismo."

"O que não aceito, de forma nenhuma, é o aluno EJA ser classificado como ANALFABETO FUNCIONAL, alienado ou preguiçoso. Somos produtivos e damos prova disso em nossas participações e representações em Fóruns Estaduais e Nacionais, CONAE (Municipal e Estadual), cursos e seminários de educação. Temos participação significativa em outras áreas da sociedade como na arte, cultura e na educação. O que precisamos é ter VOZ E VEZ nos meios  educacionais."

GENTE EJA

GERA

GENTILEZA

Jurandir Galvão
Aluno atuante do Proeja (RJ)

















LOURENÇO FILHO


INTRODUÇÃO

Filho do português Manoel Lourenço Filho – comerciante e empreendedor -, que o influenciou na sua vida profissional; casado com a sueca Ida Christina Bergstrom Lourenço, Manoel Bergstrom Lourenço Filho nasceu no interior paulista, em 10 de março de 1897. Considerado uma figura ilustre da Escola Nova Brasileira, era um educador brasileiro conhecido, principalmente, por sua participação no movimento dos pioneiros dessa “Escola”.

Foi duramente criticado por colaborar com o Estado Novo de Getúlio Vargas. Entretanto, no entendimento de muitos, sua contribuição para a educação brasileira deveria ser melhor estudada.


VIDA E OBRA

Muito cedo, Lourenço Filho iniciou sua vida escolar. Tendo contato com vasta literatura, tornou-se um leitor compulsivo.

Durante, aproximadamente, dois anos (1917-1919), “flertou” com a Medicina – almejando a Psiquiatria –,  e  matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, tornando-se bacharel, em 1929. Mas sua afinidade era mesmo com a Educação.

Sua infância era com uma “brincadeira estranha”: a elaboração de um jornal próprio, em que ele era chefe, redator, tipógrafo, etc. Começava aí uma precoce e promissora carreira profissional desse grande educador. Destacou-se tanto no desempenho discente quanto nas atividades docentes.

Em 1920, na Escola Normal Primária de São Paulo, leciona diversas disciplinas pedagógicas. No ano seguinte, é nomeado para a cátedra de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal de Piracicaba, onde funda a Revista de Educação, que recebe seus primeiros artigos. Nesse mesmo ano, quando se casa, observa-se grande harmonia entre “Os Lourenços”: o leitor, o professor, o escritor, o pesquisador e o administrador. Potenciais que tomavam, pouco a pouco, espaço na educação brasileira.

A convite do governo cearense, Lourenço assume o cargo de Diretor da Instrução Pública e leciona na Escola Normal de Fortaleza. As reformas por ele empreendidas no Estado trazem repercussão no país, e podem ser entendidas como germe dos conhecidos movimentos nacionais de renovação pedagógica das primeiras décadas do século.

Retornando ao seu Estado natal, leciona na Escola Normal de Piracicaba, durante o ano de 1924. Em seguida, assume a vaga de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal de São Paulo,  por seis anos,  com grandes produções e publicações, inclusive com traduções. A influência da Psicologia Experimental em sua obra é evidente, nesse momento.

Também merece destaque como político. Presente nas Conferências Nacionais de Educação de 1927 e 1928, respectivamente em Curitiba e Belo Horizonte, apresenta suas ideias quanto ao ensino primário e à liberdade dos programas de ensino. Pode ser considerado um dos autores mais importantes do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932.

Não se pode deixar em segundo plano o lado inovador desse educador. Lourenço Filho, mais do que o simples assinante do Manifesto, era sedendo pelo novo. Ele queria mais em termos de Pedagogia. Sua preocupação era também com o fazer pedagógico.

No campo da Educação, sua contribuição abrange temas como educação pré-primária, alfabetização infantil e de adultos, ensino secundário, ensino técnico rural, universidade, didática, metodologia de ensino, administração escolar, avaliação educacional, orientação educacional, formação de professores, educação física e literatura infanto-juvenil – textos espalhados por numerosos livros, revistas, jornais, cartilhas, conferências, apresentações e prefácios. Há publicações de seus escritos em inglês, francês e espanhol.

A formação profissional e os profundos vínculos dessa com sua produção e atuação, conferem a Lourenço Filho o perfil de intelectual educador. Foi, principalmente, um professor e um estudioso de assuntos didático-pedagógicos.

Lourenço Filho viveu seus últimos anos no Rio de Janeiro, e, vítima de colapso cardíaco, faleceu em 03 de agosto de 1970, aos 73 anos.


LOURENÇO E SUA IMPORTÂNCIA PARA A EDUCAÇÃO

Outros nomes, também, destacaram-se, nessa época – como Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira. Entretanto Lourenço Filho não se curva a quaisquer educadores, sempre procurando posicionar-se como um político crítico, dentro das suas convicções.

Também é criticado pelo caráter tecnicista de suas propostas educacionais. Talvez uma investigação aprofundada sobre esse educador pudesse guindá-lo da posição secundária, em que costumeiramente parece ser confinado, para um plano de maior destaque.

De fato, a obra de Lourenço Filho sobre a Escola Nova é emblemática. Em 1926, por exemplo, em resposta ao inquérito acerca do ensino paulista promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, apresenta com extraordinária clareza e precisão as características do movimento renovador: "A escola tradicional não serve o povo, e não o serve porque está montada para uma concepção social já vencida, senão morta de todo... A cultura, bem ou mal, vinha servindo os indivíduos que se destinavam às carreiras liberais, mas nunca às profissões normais de produção econômica".

Esta citação vem confirmar o entendimento do autor, naquele momento, da profunda articulação existente entre a escola e a vida social. Assim, uma escola Moderna só seria a "escola do trabalho". Lourenço Filho tinha claro que a elitização e o intelectualismo da educação brasileira não atendiam às necessidades das classes populares, antes as privavam de inserção no esquema produtivo.

Sobre o valor do livro Introdução ao estudo da Escola Nova: Bases, sistemas e diretrizes da Pedagogia contemporânea, destacamos um comentário de Fernando de Azevedo: "não há obra que o substitua na literatura pedagógica. Lê-de-o, se quiserdes ter uma visão, larga e profunda, da escola nova”. Lembramos que, na época, as discussões sobre a escola nova se davam em vários países. Lourenço Filho procurou dar caracterização nacional à temática, embora na Introdução ao Estudo da Escola Nova muito pouco fale do Brasil, informando, majoritariamente, sobre o movimento no exterior.

Poderíamos perguntar, a esta altura, qual a concepção de educação que Lourenço defendia. A polêmica distinção entre educação e ensino e o papel que cabe à escola são focos do artigo "Modalidades de Educação Geral”. Para ele, "ensinar" é a arte de transmitir conhecimentos e técnicas, ou seja, o ensino é o processo de incubação de noções e ideias. Esse papel coube historicamente à escola. "Educar" é levar em conta um conjunto de modalidades, “... todas aquelas em que uma educação integral, nessa compreensão, possa fazer supor”. Entender essa sua concepção de educação requer, portanto, listar inúmeros elementos. Para Lourenço, a educação é eminentemente social, é vida!

Tal definição de educação vincula o papel da escola à história. Ou seja, se novas condições de vida, se novos problemas e conflitos, surgem, reflexos ocorrerão no espaço escolar: "O que a educação agora exige é que se compreenda essa mudança das condições da existência. Nem todos os valores se subverteram, mas a técnica de viver que se apresenta às novas gerações é diversa da nossa, em razão dos progressos da ciência, da economia industrial, dos novos poderes que o homem conquistou sobre a natureza, sobre a vida e a morte, sobre o pensamento".

Não parece ao leitor que essa citação, tomada por si só, poderia ser incorporada aos atuais discursos? A complexidade das relações entre a escola e a sociedade, se agora é lugar comum, já era apontada pelo autor, o que exemplifica sua aguda visão.

Para que a escola desempenhe uma educação integral, deve oferecer mais do que instrução, a ela cabe integrar os indivíduos. Ainda em suas próprias palavras: "A fim de que a escola, primária ou secundária, possa ter caráter educativo pleno, deverá oferecer condições e oportunidades para que os alunos organizem a sua conduta para a saúde, a família, o trabalho, a pátria, a recreação e a religião. Nestes termos se condensam, realmente, todas as modalidades de possível ação educativa".

 O PROBLEMA DA EDUCAÇÃO DE ADULTOS

LOURENÇO FILHO
Do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos.

Em seu mais amplo sentido, a "educação" é a influência que as gerações adultas, exercem sobre as novas gerações, para que a estas transmitam suas técnicas, ideias, sentimentos e aspirações. Normalmente, recebem educação os jovens; ministram-lha seus maiores. A expressão "educação de adultos'' parece oferecer, portanto, contradição entre os seus próprios termos, ou, pelo menos, problema que reclama estudo particularizado.

Desde o começo do século passado para cá, a educação foi sendo mais claramente deferida ao Estado, que passou a planejá-la e a exercê-la de modo preponderante. Por toda a parte, estabeleceram-se sistemas públicos de educação; montaram-se redes escolares para difusão de um mínimo de cultura; pretendeu-se e pretende-se a educação universal. Se a organização desses sistemas pudesse ser completa, todas as crianças e jovens acorreriam às escolas, nas idades certas. E se o funcionamento das instituições escolares pudesse ter plena eficiência, apresentar-se-iam os homens feitos dotados das capacidades a desejar-se, para perfeito ajustamento social. Não se ofereceria, então, o problema da educação de adultos, ou não teria ele os característicos que ainda hoje apresenta.

Mas, a verdade é que, mesmo nos países de mais sólida organização e de mais abundantes recursos, a realização acabada daquele ideal não tem sido possível. De uma parte, há a dispersão da população e a sua relativa mobilidade; de outra, resistência às obrigações escolares. Existem ainda flagrantes diferenças individuais quanto à capacidade de aprendizagem. E não é tudo. Por mais adiantadas que sejam as instituições escolares, não chegam elas a dar sempre, e a todas as crianças e jovens, aquelas capacidades, técnicas ideais e valores, que a vida adulta vem a reclamar, no devido tempo. Tantas têm sido as variações da vida contemporânea, nesta época de "civilização em mudança", que o processo escolar não tem bastado como recurso normal de educação intencional. A necessidade de educação ou de reeducação está assim presente em todas as idades.

ATÉ QUE PONTO PODEM EDUCAR-SE OS ADULTOS?

Do ponto de vista social, não podem ser negadas as vantagens de serviços organizados de educação de adultos. Mas, do ponto de vista da capacidade de aprendizagem, até que ponto serão eles produtivos?

A pergunta não nos parece ociosa. Na observação popular, "é de pequenino que se torce o pepino", e "boi velho não toma ensino... '' Ainda em escritos de psicólogos relativamente modernos, essas ideias perduram. WILLIAM JAMES, por exemplo, afirmou que "fora de suas próprias ocupações, as ideias obtidas pelos homens até os vinte e cinco anos são praticamente as únicas de que poderão dispor no restante de sua vida". Não podem eles colher nada de novo...”.

Os notáveis trabalhos experimentais de EDWARD THORNDIKE, ELSIE, BREGMAN, J.W. TILTON e ELLA WOODYARD, publicados em 1928, vieram, porém, modificar esse ponto de vista, muito corrente mas não fundamentado.

Na verdade THORNDIKE e seus colaboradores juntaram extensa documentação, colhida em experiência em escolas noturnas de adultos, escolas de comércio e institutos de ensino superior; procederam a estudos comparativos, entre a capacidade de aprendizagem na infância, na adolescência e idades mais avançadas; e puderam, por fim, concluir de forma diversa do que se tinha por assentado. O resumo geral de todo o trabalho pode ser assim exposto, segundo as próprias palavras dos pesquisadores:

A capacidade de aprender cresce desde a primeira infância, continuamente, até cerca dos 25 anos; daí por diante decresce, gradualmente e vagarosamente, na proporção de mais ou menos um por cento. A infância não se apresentou, em nossas experiências, como a melhor idade para aprender, se com isso quisermos significar maior soma de aprendizagem nas mesmas unidades de tempo. A melhor idade para aprendizagem, nesse sentido, é a dos 20 aos 30; e qualquer idade entre 30 e 45, é ainda melhor do que as que medeiem entre 10 e 14".

Os trabalhos de THORNDIKE e seus colaboradores não esperaram por comprovação, por parte de outros pesquisadores. Num livro de WEISENBURG e MACBRIDE, editado em 1936, encontra-se excelente resumo dessas novas investigações, pelo qual se verifica que as conclusões das primeiras pesquisas não se modificaram na substância. A maior extensão do desenvolvimento mental parece ocorrer, na verdade, tanto para os homens como para as mulheres, entre os 20 e 30 anos. A plasticidade nervosa e muscular pode perder-se, e realmente se perde, mas isso é compensado pela maior compreensão dos problemas, maior experiência adquirida e mais firme desejo de aprender. Assim, o que há, na realidade, não é a perda da capacidade de aprender, mas formas de aprender diferentes daquelas pelas quais normalmente aprendem as crianças.

O que, de modo geral, nos leva à impressão de maior facilidade de aprendizagem da parte das crianças, é o fato de aprenderem elas uma enormidade de coisas na infância: a língua materna, o nome das coisas, a pronúncia, a gramática, os jogos, as lições escolares. A vida doméstica e as instituições educativas estão, ademais, preparadas para ensinar às crianças, o que, é certo, não ocorre para com os adultos.

De tudo, se conclui que os adultos podem aprender, educar-se e reeducar-se, mesmo na mais avançada idade. De certo modo, todos poderão repetir o dito célebre de CATÃO, o Antigo. Como quisesse este grande romano aprender grego aos oitenta anos, perguntaram-lhe por que tinha escolhido aquela idade para aprender. "Escolher como? perguntou ele. Neste momento eu não tenho outra idade"...

Poderão assim responder os alunos adultos. Não, porém, os seus mestres, quanto às formas e processos de ensino que devam empregar. Porque aí há escolha a fazer, e, por vezes, delicada.


METODOLOGIA ESPECIAL DO ENSINO DE ADULTOS     

Não é da intenção desta breve palestra examinar a questão da metodologia especial do ensino de adultos. Cabem aqui, porém, algumas observações de ordem geral a respeito. Como observa um autor, todas as vezes que alguém assuma a responsabilidade de educar, necessitará de ordem e método, isto é, de compreensão segura dos fundamentos de seu trabalho. E o conhecimento do método que distingue o verdadeiro profissional do amador, mesmo quando este possua o título de... professor.

Quem pretenda ensinar a adultos, como as crianças, precisará conhecer, por pouco que sejam, os processos de aprendizagem e os princípios gerais da didática. Mas estes ainda não bastam. Há na verdade, uma pedagogia especial para adultos, já que em parte fixada, em outra, ainda flutuante. E há, também, cuidados especiais a tomar, em virtude das próprias condições do desajustamento do adulto, e consequente situação de inferioridade cultural.

Se grandes são as diferenças individuais, que se observam nas crianças, maiores são elas nas classes de adultos, porque, mais variável é a experiência em cada um. Nessas diferenças, salientam-se aquelas decorrentes da falta de treino para aprender. São elas tão importantes, para o efeito geral que se queira obter, que THORNDIKE não hesitou em afirmar que no desuso da capacidade de aprender é que o adulto encontra as maiores dificuldades; e, assim que, no segredo em restabelecer essa capacidade é que encontrarão os professores de adultos a chave do êxito em seu ensino. Nas classes de analfabetos adultos, muito especialmente, será grave erro confundir o desajeitamento no trabalho escolar com falta de inteligência; e, como o adulto, mais facilmente do que a criança,

Percebe os gestos de impaciência do mestre, claro está que não atender a este ponto será desencorajar o aluno, ou agravar-lhe o sentimento de inferioridade que naturalmente apresenta.

O primeiro cuidado estará em entender as dificuldades dessa situação; o primeiro objetivo será o de despertar a confiança do aluno em si mesmo, ou em sua capacidade de vencer a aprendizagem que se lhe proponha. Em consequência, dois pontos deverão merecer especial atenção: 1) a conveniente graduação das unidades didáticas, lições ou exercícios; 2) a proporcionada "extensão" deles, encarada não pelo número de elementos a vencer (sentenças, palavras ou linhas), mas, sim, pelos novos mecanismos de aprendizagem, que devam ser dominados.

Com as crianças, uma certa pressão relativa à extensão da matéria é por vezes útil, e até mesmo necessária. Com o adulto, será desastrosa. Um homem, ou mulher, a quem se observe, perante outros, que não aprendeu, ou que não aprende facilmente, ficará de pronto desencorajado, perderá a confiança em si, tornando-se como negativamente motivado para o trabalho escolar.

A cada lição, ao contrário, desde que a matéria esteja convenientemente dosada, o professor mostrará que mais uma dificuldade está vencida e que convirá prosseguir. Nada sustentará mais ao estudante adulto do que esse sentimento de continuado triunfo.

Por maior que sejam os recursos técnicos do professor, deverá ele lembrar-se de que necessita grande dose de compreensão humana, ou espírito de serviço social. Se a todo e qualquer professor, necessárias se tornam certas qualidades de segura intuição psicológica, nos que devam tratar com adultos essas qualidades são de todo em todo imprescindíveis.

Certos estudos têm demonstrado que as classes de adultos necessitam de mais abundante material do que à primeira vista se possa supor. Quadros, figuras, desenhos esquemáticos, gráficos, livros ilustrados, influem beneficamente na instrução. Quanto às cartilhas, torna-se necessário que estejam adaptadas ao vocabulário e aos interesses do adulto; tanto quanto procuramos fazer com as crianças, neste caso, devemos fazer com os adultos. O uso das cartilhas infantis aumenta, para muitos, o seu sentimento de inferioridade, pelo inevitável confronto de sua situação com a dos escolares na idade própria, seus próprios filhos, parentes ou conhecidos.

Forma natural de contrabalançar essa situação será a de tratar de assuntos de interesse direto da vida do adulto. Embora os alunos ainda não saibam ler ou escrever, poderão receber ilustração oral, sobre os mais diversos temas de geografia, história, ciências, higiene, problemas da vida social. Isso os confortará, dando-lhes maior segurança em suas capacidades e reafirmando neles o incentivo da cultura.

Nessas lições orais, (que deverão ter, de preferência, a forma de diálogo, e não a de monólogo do professor), dever-se-á descobrir, tanto quanto possível, os interesses e aspirações naturais do aluno. Na criança, de mais fácil imaginação, certas lições ainda que um pouco apartadas dos interesses imediatos, podem atrair. No adulto analfabeto, não. Sua vida tem sentido positivo ou real. Há problemas concretos, com os quais se defronta. Se ele não sente que o ensino, que esteja recebendo, lhe é funcional, dele se desviará por senti-lo menos útil ou pouco oportuno.


A EDUCAÇÃO DE ADULTOS NO DISTRITO FEDERAL

Dirigindo-me aos ilustrados professores de ensino supletivo, e especialistas de outros ramos de educação de adultos, no Distrito Federal, desnecessárias se tornam maiores considerações quanto a esses pontos. Já tivemos ocasião de fazer referência às diversas fases de continuado progresso desses serviços na capital do país, e bem sabemos de seu atual desenvolvimento e da eficiente orientação que lhes vem sendo dada pelo Departamento de Difusão Cultural, da Secretaria Geral de Educação e Cultura, da Prefeitura, proficientemente dirigido pelo Dr. Henrique Batista Pereira. Sabemos igualmente da cooperação em estudos, cursos especiais e investigações coordenadas pelo Centro de Pesquisas Educacionais, sob a esclarecida chefia do Dr. Pedra Pernambuco Filho.

A esse trabalho, não tem faltado a entusiástica colaboração do Centro de Professores de Ensino Noturno, que aqui nos congrega, para a inauguração desta série de palestras. Será oportuno relembrar que, em documento que dirigiu ao Sr. Prefeito do Distrito Federal, solicitando a aprovação dos programas dos cursos de Educação de Adultos, o Sr. Coronel Jonas Correia, ilustre Secretário Geral de Educação e Cultura, teve ocasião de salientar “a competência, o critério, a dedicação e a cultura do magistério noturno, que não deixa que passem as oportunidades de firmar, com a mais convincente das singelezas, a sua vocação, de se dedicar inteiramente à educação das massas humanas necessitadas".

Por contar com auxiliares de tais méritos é que a Prefeitura do Distrito Federal tem podido dar grande desenvolvimento ao ensino de adultos, nos últimos anos. Com efeito, se em 1943, eram pouco mais de sete mil os alunos dos vários cursos, já no exercício seguinte subiam eles a 8345, e, no corrente ano, ultrapassam 11 mil. Para esse resultado, é de salientar-se a criação de mais 10 cursos elementares para adultos, e, a título de experiência, de 4 cursos de artes femininas, que aliados a outros cursos técnicos, representam verdadeiras "escolas de continuação".

Conveniente será indicar, embora de passagem, a rápida evolução de outros serviços relacionados com a educação de adultos, mantidos pela Secretaria Geral de Educação. Criados em 1935, apresentam eles surpreendente desenvolvimento, nem de todos conhecido. Além do serviço de ensino, a que já fizemos referência, existem hoje o Serviço de Teatros, o Serviço de Bibliotecas e o Serviço de Divulgação. Este último, atuando pela imprensa, pela radiodifusão, cinema escolar, discoteca pública, recreação e cultura popular, vem realizando obra realmente proveitosa. O Serviço de Recreação e Cultura Popular, ultimamente instituído, já realizou 18 espetáculos públicos, em vários bairros da capital; a Discoteca Pública, recebeu a visita de 11.611 consulentes, que se utilizaram de mais de 50 mil discos. São serviços que, por sua organização, honram a administração pública e, por seus efeitos de difusão cultural, impõe-se à nossa admiração.


CONCLUINDO


Na Educação de Adultos, dantes limitada, entre nós, onde há poucos cursos noturnos de letras, vem, enfim, aos poucos ensaiando outras formas e atendendo às demais funções que deverá preencher. Merecem referência, nesse sentido, também as realizações do Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo, e ainda a de outras prefeituras, mesmo de pequenos municípios.

O Ministério da Educação, por seu lado, vem incrementando o serviço de bibliotecas, em todo o país, pelo Instituto Nacional de Livro; mantém o Serviço Nacional de Teatro, o Instituto Nacional de Cinema Educativo e o Serviço de Radiodifusão Educativa; criou o Museu Nacional de Belas Artes, o Museu Imperial e o Museu das Missões, e reorganizou o Museu Histórico e o Museu Nacional.

Teve a iniciativa do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. No atual momento, pelo Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, empenha-se em ampla campanha de extensão do ensino supletivo, por todo o país, para o que sugeriu a criação de Comissões Estaduais e Territoriais de Educação de Adultos, que venham a coordenar a ação de comissões municipais e subcomissões distritais.

Tais iniciativas revelam como todos os aspectos dos problemas vão sendo agora considerados, para o desenvolvimento e a elevação de uma grande massa de brasileiros, que não puderam ter maiores oportunidades de educação nas idades próprias.

Em época de destruição e de crise, como a que vivemos, depois de uma segunda conflagração mundial, torna-se necessário reparar e reconstruir com rapidez. E, como afirma JOSEPH HART, "não podemos admitir que seja a educação das crianças de hoje que possa salvar o mundo da destruição: o que poderá fazê-lo é a educação de adultos. É o adulto quem deve perder a sua mentalidade restrita, seus preconceitos egoísticos, seus costumes inadequados, seus hábitos obsoletos. É ao adulto que deve ser dada a oportunidade mais rápida de refazer o mundo, pela ciência, pela tolerância, pela simpatia humana e pela organização racional".

Serão exageradas estas afirmações?… Se bem atentarmos no panorama do mundo, e no esforço que temos que pedir às gerações do presente, afim de que tenham melhor destino as gerações futuras, havemos de concluir que não. Na época de acelerada mudança de hoje, o problema da educação dos adultos, não apenas supletiva, mas de mais largo âmbito – profissional, cívico-social e cultural – apresenta-se como indispensável recurso de reajustamento e equilíbrio. O aspecto do ensino supletivo, porém, na maior extensão do país, reclama urgentes esforços, para "recuperação" de grandes massas de nossa própria gente. Nesse sentido, todas as forças vivas do país devem congregar-se numa campanha que a todos interesse e mobilize. A obra da educação popular generalizada, como por toda a parte se tem evidenciado, não pode resultar apenas de esforços governamentais, mas há de ser largo e permanente empreendimento em que esteja atenta e vigilante a consciência pública.

A contradição de termos da expressão “Educação de Adultos” a que de início aludimos é, na verdade, mais aparente que real. Onde não tenha havido condições para difusão da educação popular, nas idades próprias, ela não só se justifica, como se impõe, em face dos enormes problemas do pós-guerra.

Organizar a educação de adultos, por onde quer se torne necessária, será recuperar valores sociais quase perdidos, pela oferta de novas oportunidades; será concorrer para maior compreensão cívica e social; será enfim, reforçar, por todas as formas, a estrutura da vida nacional. É ela, enfim, obra de organização social, de revigoramento econômico e fundamentação democrática, necessária e urgente.



domingo, 6 de maio de 2012

Diálogo Filosófico - Lourenço Filho




Fundação Educar


Para se ter alguma noção de como a Educação de Jovens e adultos aconteceu no Brasil, se faz necessário um retrospecto da história das últimas quatro décadas da ação do Estado no campo da EJA. Sendo estes: “Fundação Mobral (1967 – 1985), da Fundação Nacional para Educação de Jovens e Adultos – Fundação Educar (1986 – 1990) e do Programa Brasil Alfabetizado (2003 – atual)” (SUZUKI, 2009, p. 16).
Como ponto de partida é o Movimento Brasileiro de Alfabetização – Fundação Mobral foi criado no período da ditadura militar para responder às necessidades do Estado autoritário.
O Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização, criado em 1967  (embora só inicie suas atividades em 1969) e funcionando com uma estrutura paralela e autônoma em relação ao Ministério da Educação, reedita uma campanha em âmbito nacional conclamando a população a fazer a sua parte: “você também é responsável, então me ensine a escrever, eu tenho a minha mão domável, eu sinto a sede do saber”. O Mobral surge com força e muitos recursos. Recruta alfabetizadores sem muitas exigências: repete-se, assim, a despreocupação com o fazer e o saber docentes – qualquer um que saiba ler e escrever pode também ensinar. Qualquer um, de qualquer forma e ganhando qualquer coisa (GALVAO; SOARES, 2004, p. 45-46).
 Desta maneira, foram recrutados pessoas que sabiam ler e escrever para ensinar quem não sabia ler ou escrever. Essas pessoas muitas vezes só tinham este conhecimento, na maioria das vezes não tinha nenhum grau de escolaridade.
O Mobral foi extinto em 1985, surgindo desta forma a Fundação Educar, que desempenhou um papel relevante na atuação do Ministério da Educação junto a Prefeituras municipais e organizacionais da sociedade civil, com destaque nos movimentos sociais e populares.
Mudanças significativas foram perceptíveis na condução da formação do educador e na concepção político-pedagógico do processo de ensino-aprendizagem. O período foi marcado pelos conflitos entre Estado e Movimentos Sociais originários pelo atraso no repasse dos recursos e na defesa da autonomia dos movimentos na condução dos processos pedagógicos. (FARIAS, 2006, p. 16).
 No ano de 1990, sendo este ano Internacional da Alfabetização   aconteceu o contrário, ao invés do Governo de Fernando Collor de Mello dar prioridade a Educação simplesmente aboliu a Fundação Educar, sendo que não criou nenhuma outra instância que assumisse suas funções. Desta forma, a partir deste ano o Governo ausenta-se como articulador e indutor de uma política de alfabetização de jovens e adultos no Brasil. Em 2002, na gestão do governo de Luís Inácio Lula Silva, foi criado o Programa Brasil Alfabetizado e das Ações de continuidade da EJA.
Conclusão
Considerando a trajetória da EJA no Brasil, este tem sido pautado por campanhas ou movimentos desenvolvidos, a partir da administração federal, com envolvimento de organizações da sociedade civil, visando à realização de propostas ambiciosas de eliminação do analfabetismo e formação de mão-de-obra, em curtos espaços de tempo.
Nos dias de hoje a alfabetização não visa somente à capacitação do aluno para o mercado de trabalho é também necessário que a escola desenvolva no aluno suas capacidades, em função de novos saberes que se produzem e que demande um novo tipo de profissional, que o educando obtenha uma formação indispensável para o exercício da cidadania.


PAULO FREIRE 




Paulo Freire nasceu em Recife em 1921, numa família de classe média, mas devido à crise econômica de 1929 e à morte do pai em 1934, viveu uma adolescência difícil. Apesar disso, conseguiu concluir os estudos e, em 1943, aos 22 anos, ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Ele se formou, mas não chegou a exercer a profissão, preferindo dar aulas de língua portuguesa numa escola de segundo grau. 

Em 1947, Freire assumiu o cargo de diretor de educação do Serviço Social da Indústria (Sesi), no Recife, quando passou a se interessar pela alfabetização de adultos e pela educação popular. Na década de 1950, foi professor universitário e concluiu o doutorado em Filosofia e História da Educação. 

Nos anos 60 trabalhou com movimentos de educação popular e, no governo de João Goulart, coordenou o Plano Nacional de Alfabetização, com objetivo de tirar 5 milhões de pessoas do analfabetismo. Seu método, conhecido como “pedagogia da libertação”, tinha como proposta uma educação crítica a serviço da transformação social. 

Em 1964, depois da ascensão dos militares ao poder, Paulo Freire foi preso e exilado. Morou na Bolívia, Chile, Estados Unidos e Suíça. No Chile, em 1968, escreveu sua obra mais conhecida, A pedagogia do oprimido. Ao longo da década de 1970, desenvolveu atividades políticas e educacionais em diversos países da África, Ásia e Oceania. Ele só retornou ao Brasil em 1980 com a Anistia. 

No ano de 2012 foi oficialmente declarado patrono da educação brasileira. O projeto de lei foi aprovado por unanimidade no início de março pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, em decisão terminativa. 

Foi educador e filósofo e é conhecido principalmente pelo método de alfabetização de adultos que leva seu nome, desenvolveu um pensamento pedagógico assumidamente político. Para Freire, o objetivo maior da educação é conscientizar o aluno. Isso significa, em relação às parcelas desfavorecidas da sociedade, levá-las a entender sua situação de oprimidas e agir em favor da própria libertação. 

De acordo com Freire o “conhecimento emerge apenas através da invenção e reinvenção, através de um questionamento inquieto, impaciente, continuado e esperançoso de homens no mundo, com o mundo e entre si”. O conhecimento é um processo que transforma tanto aquilo que se conhece como também o conhecedor. Isto é, o conhecimento surge apenas da relação dialógica e recíproca entre um trinômio formado pelo conhecimento ele mesmo, o professor e o aluno. 

Freire acredita que o verdadeiro aprendizado só acontece quando o aprendiz é colocado de frente a um problema, que o impede temporariamente de implementar suas decisões ou satisfazer seus desejos. Esta noção engloba dois aspectos interrelacionados;  o papel do professor e a “elevação do nível de consciência”. 

O primeiro aspecto refere-se ao papel do professor em que este é visto como aquele que cria situações nas quais o aprendiz encontra obstáculos a vencer. É nesta consciência de incompletude que se fundamenta a educação como uma atividade exclusivamente humana. Neste sentido. conhecedor e conhecimento, tal qual o problema e sua solução, são relatadas simbioticamente e dinamicamente. 

O segundo refere-se a aspectos envolvendo a ideia de “elevação do nível de consciência”. Assim implícita na “proposição de problemas”, está a necessidade de conscientizar-se dos problemas que existem a nossa volta. 

O principal livro de Paulo Freire é Pedagogia do Oprimido, onde descreve tanto os métodos que desenvolveu e aplicou, como uma reflexão filosófica sobre seus fundamentos e ramificações. Critica a educação tradicional, que denomina de “conceito ‘bancário’ de educação, no sentido que aos estudantes só é permitido receber, arquivar e armazenar os depósitos”. Condenava o ensino oferecido pela ampla maioria das escolas (isto é, as “escolas burguesas”), que ele qualificou de educação bancária. Nela, segundo Freire, o professor age como quem deposita conhecimento num estudante apenas receptivo, dócil. 

Em outras palavras, o saber é visto como uma doação dos que se julgam seus detentores. Trata-se, para Freire, de uma escola alienante, mas não menos ideologizada do que a que ele propunha para despertar a consciência dos oprimidos. “Sua tônica fundamentalmente reside em matar nos educandos a curiosidade, o espírito investigador, a criatividade”, escreveu o educador. Ele dizia que, enquanto a escola conservadora procura acomodar os estudantes ao mundo existente, a educação que defendia tinha a intenção de inquietá-los.