LOURENÇO FILHO
INTRODUÇÃO
Filho do português Manoel Lourenço Filho –
comerciante e empreendedor -, que o influenciou na sua vida profissional; casado com a sueca Ida Christina Bergstrom Lourenço, Manoel Bergstrom Lourenço
Filho nasceu no interior paulista, em 10 de março de 1897.
Considerado uma figura ilustre da Escola Nova Brasileira, era um educador
brasileiro conhecido, principalmente, por sua participação no movimento dos
pioneiros dessa “Escola”.
Foi duramente criticado por colaborar com o Estado
Novo de Getúlio Vargas. Entretanto, no entendimento de muitos, sua contribuição
para a educação brasileira deveria ser melhor estudada.
VIDA E OBRA
Muito cedo, Lourenço Filho iniciou sua vida
escolar. Tendo contato com vasta literatura, tornou-se um leitor compulsivo.
Durante, aproximadamente, dois anos (1917-1919),
“flertou” com a Medicina – almejando a Psiquiatria –, e matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, tornando-se bacharel, em
1929. Mas sua afinidade era mesmo
com a Educação.
Sua infância era com uma “brincadeira estranha”: a elaboração de um jornal próprio, em que ele
era chefe, redator, tipógrafo, etc. Começava aí uma precoce e promissora
carreira profissional desse grande educador. Destacou-se tanto no desempenho
discente quanto nas atividades docentes.
Em 1920, na Escola Normal Primária de São Paulo,
leciona diversas disciplinas pedagógicas. No ano seguinte, é nomeado para a
cátedra de Psicologia e Pedagogia da Escola Normal de Piracicaba, onde funda a
Revista de Educação, que recebe seus primeiros artigos. Nesse mesmo ano, quando
se casa, observa-se grande harmonia entre “Os Lourenços”: o leitor, o professor, o escritor, o pesquisador e o
administrador. Potenciais que tomavam, pouco a pouco, espaço na educação brasileira.
A convite do governo cearense, Lourenço assume o
cargo de Diretor da Instrução Pública e leciona na Escola Normal de Fortaleza.
As reformas por ele empreendidas no Estado trazem repercussão no país, e podem
ser entendidas como germe dos conhecidos
movimentos nacionais de renovação pedagógica das primeiras décadas
do século.
Retornando ao seu Estado natal, leciona na Escola
Normal de Piracicaba, durante o ano de 1924. Em seguida, assume a vaga de
Psicologia e Pedagogia da Escola Normal de São Paulo, por seis
anos, com grandes produções e publicações, inclusive com traduções. A
influência da Psicologia Experimental em sua obra é evidente, nesse momento.
Também merece destaque como político. Presente nas
Conferências Nacionais de Educação de 1927 e 1928, respectivamente em Curitiba
e Belo Horizonte, apresenta suas ideias quanto ao ensino primário e à liberdade
dos programas de ensino. Pode ser
considerado um dos autores mais importantes do Manifesto dos Pioneiros da
Educação Nova, de 1932.
Não se pode deixar em segundo plano o lado inovador
desse educador. Lourenço Filho, mais do que o simples assinante do Manifesto,
era sedendo pelo novo. Ele queria mais em termos de Pedagogia. Sua preocupação
era também com o fazer pedagógico.
No campo da Educação, sua contribuição abrange temas como educação
pré-primária, alfabetização infantil e de adultos, ensino secundário, ensino
técnico rural, universidade, didática, metodologia de ensino, administração
escolar, avaliação educacional, orientação educacional, formação de
professores, educação física e literatura infanto-juvenil – textos espalhados
por numerosos livros, revistas, jornais, cartilhas, conferências, apresentações
e prefácios. Há publicações de seus escritos em inglês, francês e espanhol.
A formação profissional e os profundos vínculos
dessa com sua produção e atuação, conferem a Lourenço Filho o perfil de
intelectual educador. Foi, principalmente, um professor e um estudioso de
assuntos didático-pedagógicos.
Lourenço Filho viveu seus
últimos anos no Rio de Janeiro, e, vítima de colapso cardíaco, faleceu em 03 de
agosto de 1970, aos 73 anos.
LOURENÇO E SUA IMPORTÂNCIA PARA A EDUCAÇÃO
Outros nomes, também, destacaram-se, nessa época –
como Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira. Entretanto Lourenço Filho não se
curva a quaisquer educadores, sempre procurando posicionar-se como um político
crítico, dentro das suas convicções.
Também é criticado pelo caráter tecnicista de suas
propostas educacionais. Talvez uma investigação aprofundada sobre esse educador
pudesse guindá-lo da posição secundária, em que costumeiramente parece ser
confinado, para um plano de maior destaque.
De fato, a obra de Lourenço Filho sobre a Escola
Nova é emblemática. Em 1926, por exemplo, em resposta ao inquérito acerca do
ensino paulista promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, apresenta com
extraordinária clareza e precisão as características do movimento renovador:
"A escola tradicional não serve o povo, e não o serve porque está montada
para uma concepção social já vencida, senão morta de todo... A cultura, bem ou
mal, vinha servindo os indivíduos que se destinavam às carreiras liberais, mas
nunca às profissões normais de produção econômica".
Esta citação vem confirmar o entendimento do autor,
naquele momento, da profunda articulação existente entre a escola e a vida
social. Assim, uma escola Moderna só seria a "escola do trabalho".
Lourenço Filho tinha claro que a elitização e o intelectualismo da educação
brasileira não atendiam às necessidades das classes populares, antes as
privavam de inserção no esquema produtivo.
Sobre o valor do livro Introdução ao estudo da
Escola Nova: Bases, sistemas e diretrizes da Pedagogia contemporânea,
destacamos um comentário de Fernando de Azevedo: "não há obra que o substitua
na literatura pedagógica. Lê-de-o, se quiserdes ter uma visão, larga e
profunda, da escola nova”. Lembramos que, na época, as discussões sobre a
escola nova se davam em vários países. Lourenço Filho procurou dar
caracterização nacional à temática, embora na Introdução ao Estudo da Escola
Nova muito pouco fale do Brasil, informando, majoritariamente, sobre o
movimento no exterior.
Poderíamos perguntar, a esta altura, qual a
concepção de educação que Lourenço defendia. A polêmica distinção entre educação
e ensino e o papel que cabe à escola são focos do artigo "Modalidades de
Educação Geral”. Para ele, "ensinar" é a arte de transmitir
conhecimentos e técnicas, ou seja, o ensino é o processo de incubação de
noções e ideias. Esse papel coube historicamente à escola. "Educar" é
levar em conta um conjunto de modalidades, “... todas aquelas em que uma
educação integral, nessa compreensão, possa fazer supor”. Entender essa sua
concepção de educação requer, portanto, listar inúmeros elementos. Para Lourenço,
a educação é eminentemente social, é vida!
Tal definição de educação vincula o papel da escola
à história. Ou seja, se novas condições de vida, se novos problemas e conflitos, surgem, reflexos ocorrerão no espaço escolar: "O que a educação agora exige
é que se compreenda essa mudança das condições da existência. Nem todos os
valores se subverteram, mas a técnica de viver que se apresenta às novas
gerações é diversa da nossa, em razão dos progressos da ciência, da economia
industrial, dos novos poderes que o homem conquistou sobre a natureza, sobre a
vida e a morte, sobre o pensamento".
Não parece ao leitor que essa citação, tomada por
si só, poderia ser incorporada aos atuais discursos? A complexidade das
relações entre a escola e a sociedade, se agora é lugar comum, já era apontada
pelo autor, o que exemplifica sua aguda visão.
Para que a escola desempenhe uma educação integral,
deve oferecer mais do que instrução, a ela cabe integrar os indivíduos. Ainda
em suas próprias palavras: "A fim de que a escola, primária ou secundária,
possa ter caráter educativo pleno, deverá oferecer condições e oportunidades
para que os alunos organizem a sua conduta para a saúde, a família, o trabalho,
a pátria, a recreação e a religião. Nestes termos se condensam, realmente,
todas as modalidades de possível ação educativa".
O
PROBLEMA DA EDUCAÇÃO DE ADULTOS
LOURENÇO FILHO
Do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos.
Em seu mais amplo sentido, a "educação" é
a influência que as gerações adultas, exercem sobre as novas gerações, para que
a estas transmitam suas técnicas, ideias, sentimentos e aspirações.
Normalmente, recebem educação os jovens; ministram-lha seus maiores. A
expressão "educação de adultos'' parece oferecer, portanto, contradição
entre os seus próprios termos, ou, pelo menos, problema que reclama estudo
particularizado.
Desde o começo do século passado para cá, a
educação foi sendo mais claramente deferida ao Estado, que passou a planejá-la
e a exercê-la de modo preponderante. Por toda a parte, estabeleceram-se
sistemas públicos de educação; montaram-se redes escolares para difusão de um
mínimo de cultura; pretendeu-se e pretende-se a educação universal. Se a
organização desses sistemas pudesse ser completa, todas as crianças e jovens
acorreriam às escolas, nas idades certas. E se o funcionamento das instituições
escolares pudesse ter plena eficiência, apresentar-se-iam os homens feitos
dotados das capacidades a desejar-se, para perfeito ajustamento social. Não se
ofereceria, então, o problema da educação
de adultos, ou não teria ele os característicos que ainda hoje apresenta.
Mas, a verdade é que, mesmo nos países de mais
sólida organização e de mais abundantes recursos, a realização acabada daquele
ideal não tem sido possível. De uma parte, há a dispersão da população e a sua
relativa mobilidade; de outra, resistência às obrigações escolares. Existem
ainda flagrantes diferenças individuais quanto à capacidade de aprendizagem. E
não é tudo. Por mais adiantadas que sejam as instituições escolares, não chegam
elas a dar sempre, e a todas as crianças e jovens, aquelas capacidades,
técnicas ideais e valores, que a vida adulta vem a reclamar, no devido tempo.
Tantas têm sido as variações da vida contemporânea, nesta época de
"civilização em mudança", que o processo escolar não tem bastado como
recurso normal de educação intencional. A necessidade de educação ou de
reeducação está assim presente em todas as idades.
ATÉ QUE PONTO PODEM
EDUCAR-SE OS ADULTOS?
Do ponto de vista social, não podem ser negadas as
vantagens de serviços organizados de educação de adultos. Mas, do ponto de
vista da capacidade de
aprendizagem, até que ponto serão eles produtivos?
A pergunta não nos parece ociosa. Na observação
popular, "é de pequenino que se torce o pepino", e "boi velho
não toma ensino... '' Ainda em escritos de psicólogos relativamente modernos,
essas ideias perduram. WILLIAM JAMES, por exemplo, afirmou que "fora de
suas próprias ocupações, as ideias obtidas pelos homens até os vinte e cinco
anos são praticamente as únicas de que poderão dispor no restante de sua vida".
Não podem eles colher nada de novo...”.
Os notáveis trabalhos experimentais de EDWARD
THORNDIKE, ELSIE, BREGMAN, J.W. TILTON e ELLA WOODYARD, publicados em 1928, vieram,
porém, modificar esse ponto de vista, muito corrente mas não fundamentado.
Na verdade THORNDIKE e seus colaboradores juntaram
extensa documentação, colhida em experiência em escolas noturnas de adultos,
escolas de comércio e institutos de ensino superior; procederam a estudos
comparativos, entre a capacidade de aprendizagem na infância, na adolescência e
idades mais avançadas; e puderam, por fim, concluir de forma diversa do que se
tinha por assentado. O resumo geral de todo o trabalho pode ser assim exposto,
segundo as próprias palavras dos pesquisadores:
A capacidade de aprender cresce desde a primeira
infância, continuamente, até cerca dos 25 anos; daí por diante decresce,
gradualmente e vagarosamente, na proporção de mais ou menos um por cento. A
infância não se apresentou, em nossas experiências, como a melhor idade para aprender, se com isso
quisermos significar maior soma de aprendizagem nas mesmas unidades de tempo. A
melhor idade para aprendizagem, nesse sentido, é a dos 20 aos 30; e qualquer
idade entre 30 e 45, é ainda melhor do que as que medeiem entre 10 e 14".
Os trabalhos de THORNDIKE e seus colaboradores não
esperaram por comprovação, por parte de outros pesquisadores. Num livro de
WEISENBURG e MACBRIDE, editado em 1936, encontra-se excelente resumo dessas
novas investigações, pelo qual se verifica que as conclusões das primeiras
pesquisas não se modificaram na substância. A maior extensão do desenvolvimento
mental parece ocorrer, na verdade, tanto para os homens como para as mulheres,
entre os 20 e 30 anos. A plasticidade nervosa e muscular pode perder-se, e
realmente se perde, mas isso é compensado pela maior compreensão dos problemas,
maior experiência adquirida e mais firme desejo de aprender. Assim, o que há,
na realidade, não é a perda da capacidade de aprender, mas formas de aprender
diferentes daquelas pelas quais normalmente aprendem as crianças.
O que, de modo geral, nos leva à impressão de maior
facilidade de aprendizagem da parte das crianças, é o fato de aprenderem elas
uma enormidade de coisas na infância: a língua materna, o nome das coisas, a
pronúncia, a gramática, os jogos, as lições escolares. A vida doméstica e as
instituições educativas estão, ademais, preparadas para ensinar às crianças, o
que, é certo, não ocorre para com os adultos.
De tudo, se conclui que os adultos podem aprender,
educar-se e reeducar-se, mesmo na mais avançada idade. De certo modo, todos
poderão repetir o dito célebre de CATÃO, o Antigo. Como quisesse este grande
romano aprender grego aos oitenta anos, perguntaram-lhe por que tinha escolhido
aquela idade para aprender. "Escolher como? perguntou ele. Neste momento
eu não tenho outra idade"...
Poderão assim responder os alunos adultos. Não,
porém, os seus mestres, quanto às formas e processos de ensino que devam
empregar. Porque aí há escolha a fazer, e, por vezes, delicada.
METODOLOGIA ESPECIAL DO
ENSINO DE ADULTOS
Não é da intenção desta breve palestra examinar a
questão da metodologia especial do ensino de adultos. Cabem aqui, porém,
algumas observações de ordem geral a respeito. Como observa um autor, todas as
vezes que alguém assuma a responsabilidade de educar, necessitará de ordem e
método, isto é, de compreensão segura dos fundamentos de seu trabalho. E o
conhecimento do método que distingue o verdadeiro profissional do amador, mesmo
quando este possua o título de... professor.
Quem pretenda ensinar a adultos, como as crianças, precisará
conhecer, por pouco que sejam, os processos de aprendizagem e os princípios
gerais da didática. Mas estes ainda não bastam. Há na verdade, uma pedagogia
especial para adultos, já que em parte fixada, em outra, ainda flutuante. E há,
também, cuidados especiais a tomar, em virtude das próprias condições do
desajustamento do adulto, e consequente situação de inferioridade cultural.
Se grandes são as diferenças individuais, que se
observam nas crianças, maiores são elas nas classes de adultos, porque, mais
variável é a experiência em cada um. Nessas diferenças, salientam-se aquelas
decorrentes da falta de treino para aprender. São elas tão importantes, para o
efeito geral que se queira obter, que THORNDIKE não hesitou em afirmar que no desuso da capacidade de aprender é
que o adulto encontra as maiores dificuldades; e, assim que, no segredo em
restabelecer essa capacidade é que encontrarão os professores de adultos a
chave do êxito em seu ensino. Nas classes de analfabetos adultos, muito
especialmente, será grave erro confundir o desajeitamento no trabalho escolar com
falta de inteligência; e, como o adulto, mais facilmente do que a criança,
Percebe os gestos de impaciência do mestre, claro
está que não atender a este ponto será desencorajar o aluno, ou agravar-lhe o
sentimento de inferioridade que naturalmente apresenta.
O primeiro cuidado estará em entender as
dificuldades dessa situação; o primeiro objetivo será o de despertar a confiança
do aluno em si mesmo, ou em sua capacidade de vencer a aprendizagem que se lhe
proponha. Em consequência, dois pontos deverão merecer especial atenção: 1) a
conveniente graduação das unidades didáticas, lições ou exercícios; 2) a
proporcionada "extensão" deles, encarada não pelo número de elementos
a vencer (sentenças, palavras ou linhas), mas, sim, pelos novos mecanismos de
aprendizagem, que devam ser dominados.
Com as crianças, uma certa pressão relativa à
extensão da matéria é por vezes útil, e até mesmo necessária. Com o adulto,
será desastrosa. Um homem, ou mulher, a quem se observe, perante outros, que
não aprendeu, ou que não aprende facilmente, ficará de pronto desencorajado,
perderá a confiança em si, tornando-se como negativamente motivado para o trabalho
escolar.
A cada lição, ao contrário, desde que a matéria
esteja convenientemente dosada, o professor mostrará que mais uma dificuldade
está vencida e que convirá prosseguir. Nada sustentará mais ao estudante adulto
do que esse sentimento de continuado triunfo.
Por maior que sejam os recursos técnicos do
professor, deverá ele lembrar-se de que necessita grande dose de compreensão
humana, ou espírito de serviço social. Se a todo e qualquer professor,
necessárias se tornam certas qualidades de segura intuição psicológica, nos que
devam tratar com adultos essas qualidades são de todo em todo imprescindíveis.
Certos estudos têm demonstrado que as classes de
adultos necessitam de mais abundante material do que à primeira vista se possa
supor. Quadros, figuras, desenhos esquemáticos, gráficos, livros ilustrados,
influem beneficamente na instrução. Quanto às cartilhas, torna-se necessário
que estejam adaptadas ao vocabulário e aos interesses do adulto; tanto quanto
procuramos fazer com as crianças, neste caso, devemos fazer com os adultos. O
uso das cartilhas infantis aumenta, para muitos, o seu sentimento de
inferioridade, pelo inevitável confronto de sua situação com a dos escolares na
idade própria, seus próprios filhos, parentes ou conhecidos.
Forma natural de contrabalançar essa situação será
a de tratar de assuntos de interesse direto da vida do adulto. Embora os alunos
ainda não saibam ler ou escrever, poderão receber ilustração oral, sobre os
mais diversos temas de geografia, história, ciências, higiene, problemas da
vida social. Isso os confortará, dando-lhes maior segurança em suas capacidades
e reafirmando neles o incentivo da cultura.
Nessas lições orais, (que deverão ter, de
preferência, a forma de diálogo, e não a de monólogo do professor), dever-se-á
descobrir, tanto quanto possível, os interesses e aspirações naturais do aluno.
Na criança, de mais fácil imaginação, certas lições ainda que um pouco
apartadas dos interesses imediatos, podem atrair. No adulto analfabeto, não.
Sua vida tem sentido positivo ou real. Há problemas concretos, com os quais se
defronta. Se ele não sente que o ensino, que esteja recebendo, lhe é funcional,
dele se desviará por senti-lo menos útil ou pouco oportuno.
A EDUCAÇÃO DE ADULTOS NO
DISTRITO FEDERAL
Dirigindo-me aos ilustrados professores de ensino
supletivo, e especialistas de outros ramos de educação de adultos, no Distrito
Federal, desnecessárias se tornam maiores considerações quanto a esses pontos.
Já tivemos ocasião de fazer referência às diversas fases de continuado
progresso desses serviços na capital do país, e bem sabemos de seu atual
desenvolvimento e da eficiente orientação que lhes vem sendo dada pelo
Departamento de Difusão Cultural, da Secretaria Geral de Educação e Cultura, da
Prefeitura, proficientemente dirigido pelo Dr. Henrique Batista Pereira.
Sabemos igualmente da cooperação em estudos, cursos especiais e investigações
coordenadas pelo Centro de Pesquisas Educacionais, sob a esclarecida chefia do
Dr. Pedra Pernambuco Filho.
A esse trabalho, não tem faltado a entusiástica
colaboração do Centro de Professores de Ensino Noturno, que aqui nos congrega,
para a inauguração desta série de palestras. Será oportuno relembrar que, em
documento que dirigiu ao Sr. Prefeito do Distrito Federal, solicitando a
aprovação dos programas dos cursos de Educação de Adultos, o Sr. Coronel Jonas
Correia, ilustre Secretário Geral de Educação e Cultura, teve ocasião de
salientar “a competência, o critério, a dedicação e a cultura do magistério
noturno, que não deixa que passem as oportunidades de firmar, com a mais
convincente das singelezas, a sua vocação, de se dedicar inteiramente à
educação das massas humanas necessitadas".
Por contar com auxiliares de tais méritos é que a
Prefeitura do Distrito Federal tem podido dar grande desenvolvimento ao ensino
de adultos, nos últimos anos. Com efeito, se em 1943, eram pouco mais de sete
mil os alunos dos vários cursos, já no exercício seguinte subiam eles a 8345,
e, no corrente ano, ultrapassam 11 mil. Para esse resultado, é de salientar-se
a criação de mais 10 cursos elementares para adultos, e, a título de
experiência, de 4 cursos de artes femininas, que aliados a outros cursos
técnicos, representam verdadeiras "escolas de continuação".
Conveniente será indicar, embora de passagem, a
rápida evolução de outros serviços relacionados com a educação de adultos,
mantidos pela Secretaria Geral de Educação. Criados em 1935, apresentam eles
surpreendente desenvolvimento, nem de todos conhecido. Além do serviço de
ensino, a que já fizemos referência, existem hoje o Serviço de Teatros, o
Serviço de Bibliotecas e o Serviço de Divulgação. Este último, atuando pela
imprensa, pela radiodifusão, cinema escolar, discoteca pública, recreação e
cultura popular, vem realizando obra realmente proveitosa. O Serviço de
Recreação e Cultura Popular, ultimamente instituído, já realizou 18 espetáculos
públicos, em vários bairros da capital; a Discoteca Pública, recebeu a visita
de 11.611 consulentes, que se utilizaram de mais de 50 mil discos. São serviços
que, por sua organização, honram a administração pública e, por seus efeitos de
difusão cultural, impõe-se à nossa admiração.
CONCLUINDO
Na Educação de Adultos, dantes limitada, entre nós,
onde há poucos cursos noturnos de letras, vem, enfim, aos poucos ensaiando
outras formas e atendendo às demais funções que deverá preencher. Merecem
referência, nesse sentido, também as realizações do Departamento Cultural da
Prefeitura de São Paulo, e ainda a de outras prefeituras, mesmo de pequenos municípios.
O Ministério da Educação, por seu lado, vem
incrementando o serviço de bibliotecas, em todo o país, pelo Instituto Nacional
de Livro; mantém o Serviço Nacional de Teatro, o Instituto Nacional de Cinema
Educativo e o Serviço de Radiodifusão Educativa; criou o Museu Nacional de
Belas Artes, o Museu Imperial e o Museu das Missões, e reorganizou o Museu
Histórico e o Museu Nacional.
Teve a iniciativa do Serviço Nacional de
Aprendizagem Industrial. No atual momento, pelo Instituto Nacional de Estudos
Pedagógicos, empenha-se em ampla campanha de extensão do ensino supletivo, por
todo o país, para o que sugeriu a criação de Comissões Estaduais e Territoriais
de Educação de Adultos, que venham a coordenar a ação de comissões municipais e
subcomissões distritais.
Tais iniciativas revelam como todos os aspectos dos
problemas vão sendo agora considerados, para o desenvolvimento e a elevação de
uma grande massa de brasileiros, que não puderam ter maiores oportunidades de
educação nas idades próprias.
Em época de destruição e de crise, como a que
vivemos, depois de uma segunda conflagração mundial, torna-se necessário
reparar e reconstruir com rapidez. E, como afirma JOSEPH HART, "não
podemos admitir que seja a educação das crianças de hoje que possa salvar o
mundo da destruição: o que poderá fazê-lo é a educação de adultos. É o adulto
quem deve perder a sua mentalidade restrita, seus preconceitos egoísticos, seus
costumes inadequados, seus hábitos obsoletos. É ao adulto que deve ser dada a
oportunidade mais rápida de refazer o mundo, pela ciência, pela tolerância,
pela simpatia humana e pela organização racional".
Serão exageradas estas afirmações?… Se bem
atentarmos no panorama do mundo, e no esforço que temos que pedir às gerações
do presente, afim de que tenham melhor destino as gerações futuras, havemos de
concluir que não. Na época de acelerada mudança de hoje, o problema da educação
dos adultos, não apenas supletiva, mas de mais largo âmbito – profissional,
cívico-social e cultural – apresenta-se como indispensável recurso de
reajustamento e equilíbrio. O aspecto do ensino supletivo, porém, na maior
extensão do país, reclama urgentes esforços, para "recuperação" de
grandes massas de nossa própria gente. Nesse sentido, todas as forças vivas do
país devem congregar-se numa campanha que a todos interesse e mobilize. A obra
da educação popular generalizada, como por toda a parte se tem evidenciado, não
pode resultar apenas de esforços governamentais, mas há de ser largo e
permanente empreendimento em que esteja atenta e vigilante a consciência
pública.
A contradição de termos da expressão “Educação de Adultos” a que de início aludimos é, na verdade, mais aparente que real. Onde
não tenha havido condições para difusão da educação popular, nas idades
próprias, ela não só se justifica, como se impõe, em face dos enormes problemas
do pós-guerra.
Organizar a educação de adultos, por onde quer se
torne necessária, será recuperar valores sociais quase perdidos, pela oferta de
novas oportunidades; será concorrer para maior compreensão cívica e social;
será enfim, reforçar, por todas as formas, a estrutura da vida nacional. É ela,
enfim, obra de organização social, de revigoramento econômico e fundamentação
democrática, necessária e urgente.